É sempre interessante quando músicos já experientes e conhecidos em uma determinada cena resolvem se reunir em um novo projeto, não faltam exemplos que deram certo e errado tanto no ponto de vista criativo quanto em termos comerciais ou então em ambos. E eis que temos aqui o power trio mineiro Loss como um bom exemplo de algo que deu certo, ao menos no que diz respeito a qualidade criativa e artística, já que se tratando das vertentes mais pesadas do rock a palavra "sucesso" é algo no mínimo relativo. Formado em 2020 em Belo Horizonte, o trio é composto por Marcelo Loss (vocal e baixo), fundador da banda Concreto, um dos mais importantes grupos do rock pesado de BH, Teddy Bronsk (bateria), esse também com passagem pelo Concreto mas muito mais conhecido no cenário por ter sido um dos fundadores do lendário Witchhammer, um dos nomes pioneiros do metal nacional nos anos 80, e Adriano Avelar (guitarra), que já trabalhou com importantes nomes da música, desde compositores como Marku Ribas e Klinger, a rappers como Xis, Deleve, Thales Dusares e o ex-Planet Hemp, Speed Freaks.
Com toda essa bagagem de seus integrantes somadas, o Loss chegou ao seu segundo álbum de estúdio, "Human Factor", lançado em agosto de 2024, mostrando uma evolução cavalar com relação ao seu trabalho de estreia, "Storm" de 2022, que já foi uma estreia concisa e segura, mas aqui é fácil afirmar que os caras não subiram um degrau e sim um andar inteiro.
O álbum foi gravado e produzido no Analog Dream Studio em Belo Horizonte/MG mas com mixagem e masterização no Sheriff at Antfarm Studio em Ebeltoft, na Dinamarca, pelo renomado produtor Tue Madsen, que já trabalhou com nomes do calibre de Rob Halford, Meshuggah, Behemoth, Sick Of It All, Vader, Dark Tranquillity, Kataklysm entre outros e com quem a banda já havia trabalhado no EP de estreia "Let´s Go" de 2020. A base sonora continua a mesma; um rock orgânico, direto e pesado que em alguns momentos flerta com o metal e sonoridades mais sofisticadas em dose certeira.
A exemplo de seu disco anterior, a banda mantem a mescla de composições com letras em português e em inglês, após a introdução de "Reboot", de autoria de Alan Wallace do Eminence (também de Minas Gerais), que deixa um clima bem futurista e tecnológico no ar, algo bem característico no som dos conterrâneos e aqui também é abordado na forma do conflito e interação entre a humanidade e a tecnologia, essa introdução abre caminho para a faixa "Segredos", com um riff de guitarra marcante e sua letra carregada de emoção, um bom cartão de visitas, já a sequência temos duas faixas que chamam atenção pelas introduções de bateria; "Hold Me" tem uma levada instrumental que em certos momentos lembra o Metallica dos anos 90 enquanto "Leaving" tem como maior destaque a cozinha precisa e o refrão, mas ambas já mostram que o grupo aposta muito mais em um instrumental bem encaixado e sem exageros ao invés de mostrar exibicionismos individuais desnecessários, cada instrumento (incluindo a voz) tem seu momento de brilho na medida certa, resultando em um som homogêneo e coeso.
A trinca "The Storm", "Right or Wrong" e "Deus" é o ponto alto do trabalho; a primeira certamente a mais empolgante tanto na parte instrumental afiada quanto na letra e refrão, enquanto a segunda, apesar de curta, parece ter sido encaixada de forma estratégica (deve ter sido é claro) nessa parte do disco (mais ou menos na metade), sendo uma canção acústica com uma levada southern rock em um tom melancólico e com letra reflexiva que abre caminho para "Deus", com riffs de guitarra que embalam uma letra pra lá de contemporânea, com o trecho a seguir merecendo ser mencionado; "Deus, leve aqueles que mentem, principalmente aqueles, que mentem sobre você", seja lá qual for sua religião e crença, é uma letra no mínimo reflexiva para os tempos atuais onde a fé alheia é usada para fins e interesses diversos que passam longe de seu verdadeiro propósito.
O tema "Novena" conta com a participação do multi-instrumentista Johnny Herno, é uma canção acústica com sons indígenas e da natureza, algo que nos faz lembrar de temas como "Kaiowas", "Jasco" e "Itsári" do Sepultura, servindo de introdução para a penúltima música "The Mirror", seguida do desfecho com a faixa título "Human Factor". São 36 minutos que passam literalmente voando, o que mostra que o álbum é enxuto e na medida, um passo certeiro na discografia do Loss, tendo como único ponto considerado negativo nesse segundo trabalho a qualidade da versão física da obra; apesar da bela arte da capa, o encarte é um tanto quanto pobre, sem a letra das músicas por exemplo, mas nada que desabone o trabalho como um todo, já que as letras e mais informações sobre a banda podem facilmente ser encontradas na web e nas plataformas digitais, mas uma vez que se propuseram a lançar o registro no formato físico, poderiam ter caprichado um pouco mais nesse ponto, isso enriqueceria ainda mais a obra que é de qualidade inquestionável dentro de sua proposta.
"Human Factor" rendeu a segunda turnê europeia do Loss, realizada em outubro de 2025, turnê essa que irá render seu primeiro álbum ao vivo, gravado em Londres no Cart and Horses, lendário pub na zona leste londrina onde o Iron Maiden tocou no inicio de sua carreira.