Quem espera encontrar em Perfecth o mesmo Queens of the Stone Age de Songs for the Deaf (2002) talvez tenha uma surpresa. E não necessariamente das melhores. A banda comandada por Josh Homme chega ao seu nono álbum de estúdio deixando boa parte dos riffs pesados de lado para explorar uma sonoridade mais intimista, experimental e, em alguns momentos, bastante distante daquele Rock que ajudou a consagrar o grupo.
Lançado pela Matador Records, Perfecth chega três anos após In Times New Roman... (2023), dando continuidade a uma fase bastante conturbada na vida de Homme. Problemas de saúde, um divórcio complicado e questões familiares acabaram influenciando diretamente suas composições. Não é novidade que o músico utiliza suas experiências pessoais como combustível criativo, basta lembrar de ...Like Clockwork (2013), talvez um dos melhores exemplos dessa relação entre sofrimento e música.
Mas se o álbum anterior ainda apresentava guitarras marcantes e uma boa dose de agressividade, Perfecth parece seguir na direção contrária. Os arranjos ganharam mais espaço, os instrumentos acústicos aparecem com frequência e as composições apostam em atmosferas que lembram mais David Bowie do que o Stoner Rock dos primeiros trabalhos.
A abertura com "It's Only Love" já deixa claro que estamos diante de um Queens of the Stone Age diferente. O violão e a interpretação contida de Homme conduzem uma música melancólica, que funciona como introdução para o restante do disco. Não é exatamente uma abertura empolgante, especialmente para quem está acostumado com músicas como "You Think I Ain't Worth a Dollar, but I Feel Like a Millionaire", mas estabelece o clima do trabalho.
"Insignificant Other" é uma das composições mais interessantes. O baixo de Michael Shuman e a bateria de Jon Theodore sustentam uma levada envolvente, enquanto as guitarras de Homme e Troy Van Leeuwen aparecem de maneira mais discreta. A música cresce aos poucos e mostra que a banda continua sabendo construir bons arranjos, mesmo sem recorrer aos tradicionais riffs distorcidos.
Já "Where The Goth Girls At?" apresenta uma batida quase mecânica, acompanhada de guitarras e elementos eletrônicos que remetem à fase de Era Vulgaris (2007). É uma daquelas músicas estranhas que o Queens of the Stone Age sempre gostou de fazer. Pode não agradar logo na primeira audição, mas a mudança de intensidade na parte final acaba sendo um dos momentos mais interessantes da faixa.
A experimentação continua em "Mono", provavelmente uma das músicas mais difíceis do disco. Efeitos, reverberações e instrumentos pouco convencionais se misturam em uma composição que parece mais preocupada em criar uma atmosfera do que propriamente entregar uma boa melodia. É interessante perceber a liberdade criativa do grupo, mas nem sempre experimentar significa acertar.
"From The Cliff" diminui ainda mais o ritmo, com uma abordagem acústica e intimista. Aqui a voz de Homme ganha protagonismo, acompanhada de arranjos delicados que reforçam o clima melancólico. É uma composição que exige atenção e paciência, algo que talvez afaste quem procura um álbum mais direto.
Uma das surpresas fica por conta de "Sunday", originalmente gravada por Iggy Pop em Post Pop Depression (2016), álbum que contou com a participação de Homme. A nova versão preserva boa parte da identidade da composição original, mas ganha uma interpretação diferente. A influência de David Bowie aparece novamente, principalmente na maneira como os vocais e os instrumentos se desenvolvem.
"Easy Street", escolhida como primeiro single, é um dos momentos em que o álbum parece encontrar melhor equilíbrio entre a experimentação e a identidade do Queens of the Stone Age. O violão, as guitarras e a interpretação de Homme funcionam muito bem juntos. Não chega a ser um novo clássico da banda, mas está entre as músicas que merecem destaque.
Em "Phantom Limb", a atmosfera volta a ficar mais sombria. A composição aposta na melancolia e em uma instrumentação contida, lembrando alguns momentos de ...Like Clockwork. É uma música que mostra o lado mais vulnerável de Homme, distante daquela postura provocadora e debochada que marcou boa parte de sua carreira.
O encerramento fica por conta de "Run Away From The Mob", uma composição que reúne diferentes elementos apresentados ao longo do disco. Curiosamente, a música tem suas origens nas sessões de ...Like Clockwork, o que ajuda a explicar sua proximidade com aquela fase. É um encerramento interessante, especialmente pela maneira como os arranjos se desenvolvem.
A produção merece atenção. Os instrumentos aparecem bem distribuídos, com espaço para detalhes que poderiam facilmente passar despercebidos em um trabalho mais pesado. Jon Theodore continua demonstrando sua qualidade na bateria, mesmo quando precisa tocar de maneira mais contida, enquanto Michael Shuman entrega linhas de baixo que ajudam a dar personalidade às composições.
O grande problema de Perfecth talvez esteja justamente naquilo que também representa sua maior qualidade: a liberdade criativa. O Queens of the Stone Age nunca foi uma banda preocupada em repetir fórmulas, e isso sempre fez parte de sua identidade. Entretanto, algumas músicas parecem se perder em meio aos arranjos, deixando a sensação de que faltam composições realmente memoráveis.
É difícil comparar Perfecth com trabalhos como Rated R (2000) ou Songs for the Deaf, afinal, estamos falando de uma banda que mudou bastante ao longo de quase três décadas. Ainda assim, fica aquela sensação de que Josh Homme poderia ter explorado melhor algumas ideias, especialmente quando lembramos do excelente equilíbrio entre peso, melodia e experimentação alcançado em ...Like Clockwork.
No final, Perfecth é um disco que merece ser ouvido com atenção, mas que dificilmente vai agradar a todos os fãs. Existem boas composições, arranjos interessantes e uma interpretação bastante pessoal de Homme, porém faltam aqueles momentos que fazem você querer voltar imediatamente para determinada música.
O Queens of the Stone Age continua sendo uma banda importante, capaz de explorar caminhos que muitos grupos sequer tentariam. Mas talvez Perfecth seja um daqueles trabalhos que fazem mais sentido para quem o criou do que para quem está do outro lado dos alto-falantes.
E, considerando o título escolhido, talvez essa imperfeição tenha sido justamente a intenção.
Faixas:
1. It's Only Love
2. Insignificant Other
3. Where The Goth Girls At?
4. Mono
5. From The Cliff
6. Sunday
7. Easy Street
8. Phantom Limb
9. Run Away From The Mob

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